segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Mobília

Ângela Vilma

Registro interno de solidão:
tenho 32 cadeiras.
Receberei um dia 32 visitas?
32 pessoas um dia aqui se sentarão?
Há de diversas formas: de balanço, de varanda, de jantar. Cadeira artesanal, espreguiçadeira, banquinhos.
Há uma parecida com aquelas da sala de jantar de lá de casa: aquelas que beliscavam nossas bundas.
Se faço coleção?
Se é uma estranha mania?
Registro interno de solidão:
Tenho quatro grandes mesas.
E dois bules de café.
Tenho muitos talheres.
Uma casa enorme para ouvi-los tilintar.
Mãe comia de colher, às escondidas de pai.
E de colher me ensinou a comer.
Pai era civilizado: sabia andar em Salvador,
sabia escrever bem, lia Dona Flor,
usava roupa de casimira e paletó.
Mãe não: suas roupas eram sempre estampadas
costuradas por suas mãos
com cheiro de cebola.
Registro interno de solidão:
Tenho um guarda-roupa antigo.
Ele contém dez vestidos estampados.
Envelheço como mãe, e nela me misturo
aos seus traços entalhados,
às rugas mais fundas, mais velhas,
e juntas nos parecemos, engraçado,
à nossa antiga geladeira.


Publico acima uma poesia da minha amiga Ângela Vilma. Poema belíssimo que toca fundo a minha alma. Espero vê-lo em breve publicado em livro para que muitos também possam ler e se emocionar; para que muitos também tenham o privilégio que eu tive - numa tarde de inverno em sua linda casa, quando ela me mostrou os seus inéditos - de saborear a sua poesia.

8 comentários:

  1. Como não me emocionar com tamanho carinho? Só você, pessoa tão especial, para tamanho gesto de ternura. Amiga querida, obrigada!

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    1. Você e sua poesia merecem todo o carinho. Bjs

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  2. Ângela Vilma é escritora por inteiro, plena, tomada pela poesia e pela memória singular, que nos oferece continuamente em seu blog Aeronauta, faz um tempão, os melhores textos da web. Fico sempre à espera de um novo livro e creio que um romance fragmentário está praticamente pronto em seu blog, e que belo romance será. Você fez uma bela escolha com Mobília, amada. Bjsamovc (carlos barbosa)

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  3. Puxa, Carlos Barbosa, ouvir isso de você, grande romancista, me deixou muito alegre, feliz. Abraços.

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  4. Eu também espero, ansiosa, o novo livro da nossa amiga. E concordo com Carlos, os textos no Aeronauta, repletos de poesia e de memória, estão prontos para serem publicados. Bjs

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  5. Como diz meu irmão Carlos Barbosa, nas nossos papos informais, e que Ângela Vilma me perdoe pela tosca frase:
    ...é de lascar!
    Lascar vozes, dilacerar corações e derramar lágrimas.
    Bravo!
    Abigail Bastos

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  6. Belíssimo, denso, sensível.
    A escrita vigorosa da Angela.
    beijoss :)

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  7. Que interessante; uma contabilidade de objetos simbólicos.

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