terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Primeiro dia de férias

Um corte profundo no dedo médio da mão direita ao lavar a lâmina do multiprocessador recém-adquirido.
Muitas gotas de sangue no piso branco da cozinha.
Gaze, esparadrapo e a relembrança do ardor do merthiolate.
Um tanto de cansaço de tudo.
E não, isto não é um poema.

sábado, 21 de junho de 2014

E viva Diego Costa!




Não, eu não torci pela Espanha, mas torço muito por Diego Costa: sergipano de Lagarto, que saiu da pobreza jogando futebol em terras estrangeiras como tantos outros jovens brasileiros; nordestino, que entende que palavra dada é compromisso a ser cumprido; brasileiro, que, também como muitos outros jovens brasileiros, teve a chance de jogar uma copa, mas defendendo outra seleção que não a canarinho.

Em tempos de vaias, minha vaia àqueles que o vaiaram, e meus aplausos a ele, Diego Costa, o qual, silenciosamente, sem os holofotes da globo, contribui para atenuar a pobreza de muitos meninos nordestinos.

Imagem: Diego Costa, durante as férias, com a garotada de uma escolinha de futebol em Lagarto-SE (Foto: Achei Esportes).

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Sobre a vida



Embora tenha passado mais de um mês na UTI após um AVC, meu pai retornou pra casa e começou a se recuperar: voltou a andar e a falar quase que normalmente. Morreu num domingo, no meio de uma frase, enquanto contava uma de suas histórias pros amigos. Dizem que deu um suspiro mais longo e apagou. Simplesmente. 

Eu não estava lá. Naquele final de semana não pude viajar e nem deu tempo dele ler a minha última carta (enviava-lhe uma semanalmente).

Ontem, após cinco anos, minha filha me contou que, no nosso último encontro, enquanto eu me dirigia ao carro às lágrimas, ele a abraçou e disse-lhe que aquela seria a última vez que nos veria, pra ela cuida de mim.

Foi assim, e eu não tenho nenhum poema, somente esse silêncio tão fundo e a certeza de que a vida é muito bela.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O retrato




Nós morávamos no interior do interior de Sergipe, em um lugarejo tão remoto do agreste sergipano que, em meados dos anos de 1980, ainda não era alcançado sequer pela luz elétrica. Por isso quase não temos fotografias da infância. Mas houve um dia em que nossa mãe nos arrumou (eu e meu irmão mais velho) e nos levou para cidade (para rua, como ela ainda hoje fala) para tirarmos retratos. Eu tinha menos de um ano e esse olhar já muito alumbrado diante do mundo.

O retrato, eu trouxe lá da casa da minha mãe para restaurar. Ainda não fiz e o posto assim, marcado pela umidade, pela poeira, pelo tempo que passou e jamais voltará, e que também deixou marcas profundas e definitivas no meu corpo e na minha alma.

sábado, 7 de setembro de 2013

Um presente

PARA MÔNICA MENEZES

na minha casa não tem verbenas
tem sim uma varanda vaga
e um muro tão baixo
que poderias pular e vir correndo
ao meu encontro

na minha casa tem tantos santos
bem poderias aprender comigo
a rezar todos os terços
cantar os encantos do mar
ouvindo meus orixás

na minha casa também tem cristaleira
e delicadas xícaras, tão velhas, como as areias
se desmanchando em extrema solidão

mas tu não vens à minha casa
e tudo se parte, e tudo não existe...
as verbenas que não plantei, enfim, aparecem


Ângela Vilma

terça-feira, 30 de julho de 2013

Poema oração


Nossa porção de noite suportar,
Nossa porção de amanhecer também.
Nosso vazio, com êxtase ocupar.
Ou ao nosso vazio, o desdém.

Uma estrela aqui, outra ali.
Alguma se extravia.
Aqui névoa, névoa além,
Depois, dia!

DICKINSON, Emily. Um livro de horas. Trad. Ângela-Lago. São Paulo: Scipione, 2007.