sábado, 7 de setembro de 2013

Um presente

PARA MÔNICA MENEZES

na minha casa não tem verbenas
tem sim uma varanda vaga
e um muro tão baixo
que poderias pular e vir correndo
ao meu encontro

na minha casa tem tantos santos
bem poderias aprender comigo
a rezar todos os terços
cantar os encantos do mar
ouvindo meus orixás

na minha casa também tem cristaleira
e delicadas xícaras, tão velhas, como as areias
se desmanchando em extrema solidão

mas tu não vens à minha casa
e tudo se parte, e tudo não existe...
as verbenas que não plantei, enfim, aparecem


Ângela Vilma

terça-feira, 30 de julho de 2013

Poema oração


Nossa porção de noite suportar,
Nossa porção de amanhecer também.
Nosso vazio, com êxtase ocupar.
Ou ao nosso vazio, o desdém.

Uma estrela aqui, outra ali.
Alguma se extravia.
Aqui névoa, névoa além,
Depois, dia!

DICKINSON, Emily. Um livro de horas. Trad. Ângela-Lago. São Paulo: Scipione, 2007.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Brincadeiras de rua

                                             
                                         Parceria de Dominguinhos e Carlos Barbosa

terça-feira, 16 de julho de 2013

Os dias



não sei por onde anda a minha poesia
tenho arrumado gavetas
organizado estantes
e preparado a casa

nenhuma necessidade de dizer
nenhum grito preso na garganta
somente a beleza dos dias
que, silenciosamente, passam

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Adeus




Tive um aluno cujo sonho era dirigir carretas. E ele conseguiu. Há alguns anos, Bruno percorria feliz as estradas do Brasil, levando mercadorias de norte a sul. 

Ontem, na Curva do Cavaco, na BR 116, entre as cidades de Feira de Santana e Antônio Cardoso, a carroceria de uma carreta que vinha na pista contrária descontrolou-se e bateu de frente com a carreta de Bruno.

Hoje, a avó, a esposa, a filhinha de três meses (Bruna), os tios, os primos e a maior parte dos habitantes da Colônia Treze, povoado da cidade de Lagarto, em Sergipe, estão esperando o corpo do jovem trabalhador de 28 anos de idade – que era querido por todos por sua generosidade, alegria e compromisso – para dizer adeus.

Chove muito por lá e, apesar de já ser junho, faz silêncio.

sábado, 8 de junho de 2013

Muadiê Maria



“Nasci na maré de março.

E um dia, na praia da Pituba,

as ondas estavam bravíssimas e altas.

Feito um bicho, veio a maior de todas,

As pessoas saíram correndo da água.

Ficamos apenas eu e meu pai. Juro

que é verdade.

Só nós dois no mar, em frente aquela onda gigantesca”.


Recebemos ontem, pelos Correios, o belo livro de Martha Galrão, Muadiê Maria. Estou aqui deslumbrada com a simplicidade, o lirismo e a beleza das palavras dessa escritora que, nesse livro da Coleção Cartas Baianas da Editora P55, nos presenteia com preciosidades da sua memória, como no trecho – belíssimo – em que ela e o pai enfrentam uma onda gigantesca na praia da Pituba.

O pai, a filha e a onda: metáfora maior para o ensinamento da beleza. Ensinamento esse que Martha soube receber e multiplicar em poemas.

Obrigada, Martha.

Um beijo.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Dos dias impossíveis


A estrela próxima

A poesia é
impossível

o amor é mais
que impossível

a vida, a morte loucamente
impossíveis.

Só a estrela, só a
estrela
existe


_ só existe o impossível.


FONTELA, Orides. In: Poesia reunida. p. 233.