sábado, 7 de maio de 2011
...
Estou dando voltas e voltas e voltas no mesmo lugar.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Humanamente
Sabe quando a corda estica, estica, estica até partir?
Pois é, partiu.
Agora estou tentando emendá-la para com ela alcançar a borda do abismo, porque, definitivamente, eu não nasci apenas para a penumbra.
Sou feita de luzes e de sombras.
Mas prefiro dançar sob a luz da lua.
sábado, 12 de março de 2011
O que vive aqui
Deve saber o significado da tristeza –
Vilarejo montanhês,
Vilarejo montanhês,
Aguaceiro caindo
Do céu vespertino.
Dedico este poema de Saigyõ, poeta e monge que viveu no Japão no século XII, a todas as pessoas atingidas pela catástrofe que destruiu parte da Terra do Sol Nascente. Meu coração está muito triste, mas são eles que, hoje, sabem o verdadeiro significado da tristeza.Imagem: www.ig.com.br
terça-feira, 8 de março de 2011
No carnaval
Eu desconfio de mim. Desconfio da qualidade do que escrevo. Desconfio da validade do que faço. Desconfio da maturidade do que sinto. E é por desconfiar que tento dizer melhor, tento fazer melhor, tento sentir melhor, tento ser melhor. E, mesmo tentando, estou sempre faltando, sempre longe demais.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Poema de sete faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode,
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode,
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
ANDRADE, Carlos Drummond. In: Alguma poesia (1930).
Foi esse o primeiro poema que eu lembro de ter lido na vida, por volta dos oito anos de idade. Provavelmente, muito pouco eu entendi do que se espera que um leitor compreenda quando lê tais versos. Mas eu recordo perfeitamente que fiquei encantada, sobretudo com o trecho “Mundo mundo vasto mundo, /se eu me chamasse Raimundo /seria uma rima, não seria uma solução. / Mundo mundo vasto mundo, / mais vasto é meu coração”, que eu sequer sabia o significado.
Hoje, ao recordar de um tempo passado e vislumbrar um possível tempo futuro, fiquei pensando que, talvez, tenha sido a busca por compreender, em alguma medida, “o vasto mundo” drummondiano, que tanto me fascinou na infância, o que me fez trilhar por esses caminhos que me trouxeram até aqui e, quiçá, me levem um pouco além.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Merci, bien-aimé
O que seria de mim sem as suas mãos? O que seria de mim sem os seus pés? O que seria de mim sem o seu riso doido que viola, obscenamente, o meu calar? O que seria de mim sem os seus vesgos olhos que acham belo o meu desespero? O que seria de mim sem as canções de Blunt que ontem você me trouxe da sua outra morada? O que seria de mim sem você, amor, nesses dias de claustro, lavor intenso e tantos, tantos, tantos abismos?
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Um livro de horas
Isto é tudo que tenho para oferecer.
Há dias em que preciso reler certos poemas, recitá-los em voz alta, como se fossem orações. Houve um tempo, na minha adolescência, em que eu orava Tabacaria, de Álvaro de Campos, todas as manhãs, antes mesmo do café. Em outro momento foi Fidelidade, de Li Po, o meu poema prece. Poesia como oração, para as horas de agonia, de tristeza funda, mas também para as horas de beleza incomensurável e de gratidão.
Isto é tudo que tenho para oferecer.
Isto, e meu coração também.
Isto, meu coração, o campo, e além,
Toda a campina selvagem.
Trate de contar – se eu esquecer,
A soma alguém deve saber –
Isto, e meu coração, e as abelhas todas
Que vivem na folhagem.
Emily Dickinson
Há dias em que preciso reler certos poemas, recitá-los em voz alta, como se fossem orações. Houve um tempo, na minha adolescência, em que eu orava Tabacaria, de Álvaro de Campos, todas as manhãs, antes mesmo do café. Em outro momento foi Fidelidade, de Li Po, o meu poema prece. Poesia como oração, para as horas de agonia, de tristeza funda, mas também para as horas de beleza incomensurável e de gratidão.
Descobri recentemente que a escritora Angela-Lago também recita poemas como orações. E foi exatamente por isso que ela – inspirada no gênero medieval que continha orações e salmos para as diversas horas do dia – organizou uma pequena e belíssima seleção de poemas de Emily Dickinson, chamada Um livro de horas (Scipione, 2007), com 24 poemas-oração para os vários momentos do dia. Foi desse livro que retirei o poema acima.
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Fique aqui registrado que, quando eu morrer, desejo que se despeçam de mim orando poesia e, caso eu seja merecedora, que Deus permita que caia uma chuva bem fininha. Bem fininha, de manhã, e que me levem pra casa, a minha casa embaixo da mangueira.
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