segunda-feira, 17 de junho de 2013

Adeus




Tive um aluno cujo sonho era dirigir carretas. E ele conseguiu. Há alguns anos, Bruno percorria feliz as estradas do Brasil, levando mercadorias de norte a sul. 

Ontem, na Curva do Cavaco, na BR 116, entre as cidades de Feira de Santana e Antônio Cardoso, a carroceria de uma carreta que vinha na pista contrária descontrolou-se e bateu de frente com a carreta de Bruno.

Hoje, a avó, a esposa, a filhinha de três meses (Bruna), os tios, os primos e a maior parte dos habitantes da Colônia Treze, povoado da cidade de Lagarto, em Sergipe, estão esperando o corpo do jovem trabalhador de 28 anos de idade – que era querido por todos por sua generosidade, alegria e compromisso – para dizer adeus.

Chove muito por lá e, apesar de já ser junho, faz silêncio.

sábado, 8 de junho de 2013

Muadiê Maria



“Nasci na maré de março.

E um dia, na praia da Pituba,

as ondas estavam bravíssimas e altas.

Feito um bicho, veio a maior de todas,

As pessoas saíram correndo da água.

Ficamos apenas eu e meu pai. Juro

que é verdade.

Só nós dois no mar, em frente aquela onda gigantesca”.


Recebemos ontem, pelos Correios, o belo livro de Martha Galrão, Muadiê Maria. Estou aqui deslumbrada com a simplicidade, o lirismo e a beleza das palavras dessa escritora que, nesse livro da Coleção Cartas Baianas da Editora P55, nos presenteia com preciosidades da sua memória, como no trecho – belíssimo – em que ela e o pai enfrentam uma onda gigantesca na praia da Pituba.

O pai, a filha e a onda: metáfora maior para o ensinamento da beleza. Ensinamento esse que Martha soube receber e multiplicar em poemas.

Obrigada, Martha.

Um beijo.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Dos dias impossíveis


A estrela próxima

A poesia é
impossível

o amor é mais
que impossível

a vida, a morte loucamente
impossíveis.

Só a estrela, só a
estrela
existe


_ só existe o impossível.


FONTELA, Orides. In: Poesia reunida. p. 233.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Nas botas

“Contam que o velho Tolstoi resolveu engenhosamente o problema do diário, fazendo dois simultâneos. Um, escrevia-o às claras e esquecia-o de propósito por todos os compartimentos da casa, para que a família nele saciasse a curiosidade; o outro, o verdadeiro, que continha confidências mais íntimas, era escrito em segredo e escondido nas botas.”
 ANJOS, Cyro dos. Abdias. São Paulo: Globo, 2008. p.20.

domingo, 12 de maio de 2013

Mãe




Todo domingo eu falo com minha mãe pelo skipe. Ela sempre chega sorrindo, ajeitando a roupa e os cabelos; perguntando sobre mim, sobre Sarah, sobre Carlos, sobre o meu trabalho; contando as novidades da nossa terra
Hoje ela estava especialmente bela, com uma blusa branca enfeitada com borboletas, muito feliz porque chove por lá e o verde está voltando.
Minha mãe é assim: pequena, doce, simples, bela, generosa e forte. Além de tudo, ela é muito engraçada: conta causos, põe apelido nas pessoas, inventa modas e fala sozinha enquanto cuida da casa, também reza baixinho nos momentos mais inesperados.
Parece um personagem de João Guimarães Rosa a minha mãe.